Gritos na madrugada
Publicado em 17 de novembro de 2008.
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Gritos na madrugada: poderiam alguns pesadelos serem traumas de vidas passadas?

Cercados por verdejantes campos de café e cana-de-açucar, dormíamos, em nossa modesta casa de colônia, ao som apaziguador dos milhares de grilos que, assim como nós, humildes lavradores, faziam daquelas terras férteis e ricas, a sua morada. Silenciavam e descansavam durante o dia; enquanto nossos pais laboravam duramente, de sol a sol, para garantir nosso parco sustento. Depois que o sol se punha e Deus lançava sobre aquelas terras a benção da noite para o merecido descanço dos trabalhadores, vinham eles, os grilos, aos milhares, com sua doce sinfonia, embalar-nos ao sono profundo e restaurador. Eu era menino, deveria ter 5 ou 6 anos, e dormia como uma pedra.

Mas não todas as noites! Muitas, e digo muitas mesmo, foram as madrugadas em que erámos arrebatados pelos gritos aterrorizadores de meu irmão menor, à epoca com 2 ou 3 anos de idade, que dormia no quarto comigo.

Em questão de segundos minha mãe já o tinha no colo. Tentava acalmá-lo, mas sem sucesso. Ele esperneava, arranhava-a, e continuava aos berros. Seus olhos permaneciam cerrados, sua expressão era de terror. Era como se estivesse em um pesadelo do qual não conseguia despertar.

Não faz muito tempo, perguntei a ele se se recordava daquelas noites, daqueles sonhos terríveis. E ele me disse que sim. Perguntei o que o aterrorizava tanto que o despertava daquele jeito. Ele me disse que via duas rodas enormes vindo em sua direção, aproximando-se cada vez mais, e quando estavam a esmagá-lo, começava a gritar. E era sempre o mesmo sonho, as mesmas rodas, o mesmo horrível episódio.

Esta ocorrência é denominada “terror noturno”,  um distúrbio do sono caracterizado, como erámos testemunhas, por gritos acompanhado do semblante de terror como se a pessoa estivesse vendo algo terrível, como era o caso de meu irmão. Geralmente, o terror noturno ocorre na infância e tende a diminuir a partir do início da adolescência.

Convencionalmente, a medicina atribui as causas do terror noturno a eventos estressantes da vida, febre, deprivação do sono e medicamentos que afetam o sistema nervoso central.

No entanto, meu irmão não tinha nada disso. Não padecia de estresse; exceto às noites desses episódios, dormia muito bem; não tinha febre nessas noites e tampouco estava tomando medicamentos que afetavam o sistema nervoso central. Aliás, naquele meio de mato em que vivíamos  e naqueles idos anos 1960, remédio era um artigo de  luxo! Curávamos nossos males à base de chás, simpatias e benzimentos.  

Poderia meu irmão estar revivendo um trauma de vida passada, rememorando o momento de uma morte trágica em sua existência anterior?

Em meu livro Morrer não é o fim, no capítulo Marcas de outras vidas, onde abordo defeitos congênitos e marcas de nascença em crianças que se recordavam de vidas passadas e cujas marcas e defeitos estavam associados aos traumas que causaram sua morte, descrevo o caso de Cemil Fahrici, da Turquia. À medida que o pequeno Cemil Fahrici concatenava melhor as palavras, falava de sua vida passada como Cemil Hayik, um primo distante de seu pai. 

Cemil Hayik havia sido preso pelo assassinato de dois homens que violentaram sua irmã. Fugiu da cadeia e passou a ser perseguido pela polícia. Dois anos mais tarde foi encontrado e cercado pelos policiais, que atearam fogo à casa onde se escondia. Para não se entregar, Cemil Hayik suicidou-se; colocando o cano do rifle sob o queixo, disparou; a bala saiu pela nuca, do lado esquerdo.

Além de Cemil Fahrici ter trazido as lembranças da vida de Cemil Hayik, trouxe também as marcas, sob o queixo, onde a bala entrou, e na nuca, onde saiu. E o que é mais extraordinário ainda: quando Cemil Hayik nasceu, a ferida sob o queixo sangrava! Até aproximadamente os 7 anos de idade , Cemil Fahrici tinha lembranças vívidas de sua vida como Cemil Hayik em vigília, durante o dia, e à noite, tinha pesadelos do momento da emboscada e de seu suicídio. Cemil Fahrici tinha pavor de sangue e odiava policiais!

Outra curiosidade, quando o menino nasceu, seus pais o batizaram com o nome Dahham Fahrici, e quando ele compreendeu que esse nome referia-se a ele, recusava-se em responder, dizendo chamar-se Cemil, e os pais tiveram que trocar seu nome.

A Divisão de Estudos da Personalidade da Universidade de Virginia, departamento este fundado pelo Dr. Ian Stevenson (já desencarnado), o maior pesquisador científico da reencarnação, possui pelo menos 49 casos de terror noturno com características de traumas de vidas passadas.

A doutora Antonia Mills, antropóloga e pesquisadora de reencarnação da universidade de British Columbia no Canadá, investigou casos de terror noturno em três crianças norte-americanas, instando por uma interpretação alternativa (traumas em vidas passadas) em lugar das clássicas e nem sempre fundamentadas interpretações convencionais, ou seja, eventos estressantes da vida, febre, deprivação do sono e medicamentos que afetam o sistema nervoso central.   

Um dos casos mais dramáticos é o do garoto Gerald Jardin (pseudônimo) que, assim como o meu irmão, despertava toda sua família com gritos na madrugada, desde antes de completar 1 ano de idade. Entre as idades de 2 e 8 anos, tinha os mesmos pesadelos pelo menos uma vez na semana, sempre entre meia-noite e duas da manhã. À partir dos 8 anos a frequência foi diminuindo e após os 10 anos de idade, nunca mais teve. Gerald despertava com seus próprios gritos. Certa vez, em um desses episódios em que sua mãe tentava acalmá-lo, disse ela: “Tudo bem, filho, a mamãe está aqui.” “Você não é a minha mãe,” gritou o menino.

Quando Gerald tinha 4 anos de idade, sua família fez um passeio à Gettysburg, no estado da Pensilvânia, onde foram visitar o campo de batalha da guerra civil nos arredores daquela cidade, até hoje impecávelmente preservado e um dos marcos históricos mais visitados dos Estados Unidos. Esse local, o qual tive a oportunidade de visitar por duas vezes, entre 1 a 3 de julho de 1863, foi palco do mais violento confronto entre os soldados abolicionistas da união e os sulistas confederados. Mais de 7000 soldados de ambas as forças morreram no confronto e mais de 30.000 sairam feridos.

Em determinado momento do passeio, Gerald separou-se dos pais, e em seguida voltou correndo a eles e apontou para um lugar onde as tropas confederadas haviam se posicionado durante a batalha. “Foi lá que eu morri,” disse ele com naturalidade. Seus pais perguntaram o que ele queria dizer com isso, mas Gerald nada mais falou sobre o assunto.

Assim como no caso de meu irmão, as causas do terror noturno de Gerald nada tinha a ver com as explicações dadas pela medicina convencional. E casos de medos intensos e fobias, cujas causas a medicina convencional igualmente não consegue explicar, sobejam na literatura.

Vem-me a mente neste momento certa vez que perdi um objeto, e por mais que o procurasse, não conseguia encontrá-lo. Reclamei o fato com um tio que estava perto. “Claro que você não o encontra, você só o procurou em lugares onde ele não está. Procure onde está e você o encontrará.” respondeu-me em gozação.  

Eu disse gozação, mas havia sabedoria em suas palavras. Sabedoria esta que pode muito bem ser aplicada a certos casos de terror noturno assim como a tantas fobias para os quais a medicina não encontra explicação em eventos da vida presente. Não encontra explicação em eventos da vida presente porque não está aí. Procure onde está – em outros tempos, em passadas existências – e a encontrará.

Fonte
Autor: Admir Serrano
Escolaridade: Formado em psicologia pela Florida International University,  Miami
Atividades: estudioso de fenomenos paranormais e escritor. Autor do livro Morrer não é o fim (Petit Editora, lançado em fevereiro)
Residência: Miami, Florida. Tel: 305-387-2589
Email: admir@admirserrano.com
Website: www.admirserrano.com

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