Por que Tom Cego conseguia e eu não?
Publicado em 27 de maio de 2008.
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Eu vivi minha adolescência na cidade de São Paulo, na época dos Beattles e Rollings Stones, quando Roberto Carlos era “uma brasa, mora!” E eu queria ser roqueiro! Talvez nem tanto, mas pelo menos aprender a tocar o violão. Pedi a um amigo que me ensinasse, e ele prontamente se dispôs. Começamos as aulas, ou melhor, a luta. E por pouco não perco um amigo. Nossos gênios eram incompatíveis - digo, o meu e o do violão! Não combinávamos. Depois de duas semanas sem conseguir dedilhar sequer as primeiras notas de parabéns pra você, meu amigo perdeu a paciência e eu o interesse. Eu já tinha quinze anos de idade; minhas faculdades mentais e visuais eram perfeitas; e confesso que fiz um grande esforço, mas mesmo assim não consegui tocar nada naquele bendito violão,

Agora veja o caso de Tom Cego, ou Blind Tom, como ele ficou conhecido na América e na Europa.

Thomas Greene Bethune (Blind Tom) nasceu em 25 de maio de 1849, com um problema mental grave que apenas 100 casos existem na literature médica, e cego. Seus pais, Domingo Wiggins e Charity Greene, eram escravos e foram arrematados em um leilão por James Bethune, da cidade de Columbus no estado da Georgia, quando Tom era bebê. O ex-dono desses escravos deu Tom a James Bethune como brinde, pois nenhuma serventia teria um escravo cego. Nos primeiros anos de sua vida, o único sinal de inteligência que Tom demonstrava era seu interesse por sons – qualquer tipo de som. E sua capacidade de imitá-los era extraordinária. Charity, a mãe de Tom, trabalhava na mansão colonial dos patrões, e eles permitiam que a ama trouxesse o pequeno com ela.

Nós aprendemos no Espiritismo que não há coincidências na vida, que nada é obra do acaso; que nascemos na família que vai nos ajudar a cumprir nosso trabalho na terra, e que a vida se encarrega de colocar-nos no meio e com as pessoas que farão parte de nosso destino. Agora veja quanta verdade há nisso!

A família Bethune, cujo sobrenome Tom adotou por tradição, tinha sete filhos, todos com talento musical, e a casa vivia inundada pela música, tocavam piano e cantavam constantemente. Enquanto as crianças praticavam suas aulas de piano, Tom, quietinho em um canto da sala, sem nada poder ver, apenas ouvia.

Um dia, enquanto as crianças praticavam, Tom, às escuras de sua cegueira, caminhou até o piano. Com pena do menino, deixaram-no sentar-se no banquinho e colocar seus dedinhos nas teclas do piano. E o menino cego, aquele que nenhuma serventia tinha, que foi dado como brinde a James Bethune, deixou todos os presentes estarrecidos! Ele tocou, na primeira vez que sentou-se ao piano, todas as notas, exatamente como as tinha ouvido durante as aulas dos filhos dos patrões. Tom tinha quatro anos de idade!

A família Bethune contratou professores de música para ele. O primeiro veio e nunca mais voltou, disse que nada tinha a ensinar ao menino. Um deles confessou que o talento musical de Tom desafiava a compreensão. Outro disse que Tom conseguia aprender em algumas horas o que outros músicos precisavam de anos para aperfeiçoar. Aos seis anos de idade Tom já compunha suas próprias músicas.

Escravos com talentos musicais eram fontes de renda adicional para os patrões, e eles não perdiam a oportunidade de explorá-los. James Bethune apresentou "Blind Tom" ao público de Columbus, como pianista, à casa quase cheia, aos oito anos de idade. Em seguida, contratou um empresário. Aos nove anos de idade Tom já fazia pequenas fortunas a ambos, patrão e empresário, ele nada ganhava. Era levado à centenas de cidades. Explorado, chegava a fazer quatro apresentações por dia.

E Tom Cego dava espetáculo atrás de espetáculo.

Tocava os clássicos dos grandes gênios da música, e não apenas sentado à frente do piano, mas também de costas, e com as mãos cruzadas. Músicos presentes eram desafiados a um duelo musical com Tom Cego. Tom ouvia-os tocar, e em seguida repetia em seu piano, com precisão, qualquer tipo de música que tocavam.

E ia mais longe!

Fazia acompanhamento em baixo à charamela tocada por um músico a seu lado. Depois empurrava o tocador da charamela e repetia, perfeitamente, a composição inteira, composição que até então desconhecia. Quando o público aplaudia, o menino dava o rítmo dos aplausos no piano. A galera enlouquecia! E Tom exacerbava, três músicas diferentes ao mesmo tempo – tocava Fisher's Hornpipe (música tradicional das montanhas Appalachian no leste norte-americano) com a mão esquerda, Yankee Doodle, com a direita, e cantava Dixie, cada uma em seu rítmo.

Um dos primeiros comentários sobre o talento de Tom Cego saiu no jornal Baltimore Sun, em junho de 1860. O autor dizia que Tom era um fenômeno no mundo musical, que lançava por terra todas as concepções da ciência e mostrava a existência de outro mundo musical sobre o qual nada se conhecia. E foi mais longe, dizendo que seus talentos sobrepassavam os de Mozart.

Mas como poderiam seus talentos, aos 11 anos de idade, sobrepassarem os de Mozart?

Como era possível esse menino, mentalmente debilitado e cego, ser capaz de tanta proeza? Qual seria outra explicação mais racional para tão inexplicável fenômeno, senão a reencarnação de um dos grandes gênios musicais de outrora? Por que Tom Cego conseguia e eu não? De uma coisa tenho certeza, jamais fui músico em outras  vidas!

Tom morreu no dia 13 de junho de 1908, aos 59 anos de idade.

Admir Serrano é espírita, autor do livro Morrer não é o fim. É brasileiro naturalizado americano, e reside em Miami. Email para contato: admir@admirserrano.com (http://admirserrano.com)
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